sexta-feira, 30 de março de 2012

MILLÔR 8.5 (turbinado)

Reproduzo abaixo, texto que escrevi para a Zero Hora, em 2008, sobre os 85 anos do Millôr. Reproduzo ainda um dos seus questionamentos: "E se a vida for do outro lado?" Um beijo, Millôr, mais um pensador que se vai, ficamos mais pobres em inteligência. Pelo menos fica sua obra, grande pensador anarcobrasileiro.

MILLÔR 8.5 (turbinado)

“Tenho quase certeza de que uma vez, no Meyer, em certa noite de tempestade, fui barbaramente assassinado. Mas isso foi há muito tempo.”

Hoje, Milton Viola Fernandes faz 85 anos, ou melhor, faria, não fosse o registro de nascimento ter sido atrasado em quase um ano. Registro, aliás, que, além disso, lhe reservou outras surpresas. De Milton a Millôr, um longo processo foi gestado, o que incluiu o anagrama Notlim e chegou ao mil vezes Millôr atual. Nascido no Rio de Janeiro, em 16 de agosto de 1923 – e tendo como data oficial de nascimento o dia 27 de maio de 1924 -, o Guru do Meyer veio a assumir o nome Millôr já na adolescência, graças ao registro impreciso do escrivão na sua certidão de nascimento, que, ao grafar o traço do ‘t’ do nome Milton, deixou-o acima da letra ‘o’, o que foi acrescido de uma incompletude da letra “n”, sugerindo um ‘r’. Talvez isso explique a verdadeira obsessão pela reescritura do nome, uma constante na obra do humorista/ jornalista, que pode ser resumida pelo livro Um Nome a Zelar (Desiderata, 2008).

A esse respeito, aliás, ele mesmo reconhece a anterioridade do traço gráfico à escrita em sua obra, sendo que, particularmente nesse caso, há uma fusão das duas coisas, já que a letra passa por um processo de elaboração plástica que sugere uma não-hierarquização entre grafia e ilustração, no fundo configurando a mesma coisa. Aliás, em alguns momentos de sua obra, aparece a proeminência do traço artístico, de que são exemplos a premiação na Exposição Internacional do Museu da Caricatura de Buenos Aires, juntamente com o romeno/norte-americano Saul Steinberg (em 1955); um cartaz da Anistia Internacional (em 1980); e as muitas e variadas ilustrações em que a paisagem é o Rio de Janeiro, com Ipanema ao fundo. Noutros, há a proeminência da escrita, também ela artística, que começou com um chamado - já aos 16 anos - para preencher o espaço de quatro páginas da revista A Cigarra (a convite de Frederico Chateaubriand), por motivo de cancelamento da publicidade, com a seção “Poste-Escrito”, sob o pseudônimo Vão Gôgo. O sucesso dessa empreitada fez com que se tornasse seção fixa e, mais tarde (em 1945), com o mesmo pseudônimo, estreasse em O Cruzeiro a seção O Pif-Paf, ilustrada por Péricles. Dezenove anos depois (em 1964), já consagrado em sua atuação multimídia, que incluía o jornalismo, a tradução, o roteiro cinematográfico, a ilustração, o texto dramático, a poesia, o humor, etc., lançou uma revista quinzenal com o mesmo nome (Pif-Paf), considerada o início da imprensa alternativa no Brasil. Já em 1969, foi um dos fundadores do coletivo ícone ipanemense O Pasquim, que teve uma vida longa (e tumultuada) no seu papel preponderante de resistência à ditadura, em nome da liberdade de expressão. Tudo sempre pela via da inteligência, do humor e do sarcasmo, num carioquês de vários sotaques que repercutia por todo o Brasil naqueles tempos sombrios.

Outro aspecto relativo à sua infância parece também ter tido influência marcante na sua produção artística: com as perdas do pai, aos três anos, e da mãe, aos 12, em sua orfandade, cedo assumiu a posição filosófica da “paz da descrença”, o que lhe permitiu uma reflexão da realidade escorada no ceticismo. Essa precoce condição “sem pai nem mãe” acabou repercutindo em sua obra, através de um humor operado por um relativismo absoluto, centrado no dialogismo. A esse respeito, com a ajuda de Slavutzky e Kupermann (2005), podemos buscar em Freud, de Totem e Tabu, a explicação para tal característica. Segundo Kupermann, se o humorista consegue identificar-se “(...) até certo ponto com o pai, é apenas na medida em que pode reconhecer sua orfandade, ou seja, a falência da pretensão de possuir qualquer garantia transcendente (idealizada) de onisciência e onipotência, atributos do pai da horda há muito ausente”(p.34). Ou, dito em outras palavras e transposto para o caso de Millôr, “(...) tudo pode me acontecer, a mim que já perdi o que tinha para perder e que aprendi a rir com a vida”(p.35).

Biografismos à parte, a epígrafe que encima este texto, criada para a abertura de A Bíblia do Caos (2002), seu livro de pensamentos e frases, é considerada por ele mesmo referência de humor. Mas que estranho tom é esse de quem é considerado um dos maiores humoristas brasileiros? Diferentemente do riso fácil, da chalaça, podemos constatar um certo distanciamento narrativo operado por Millôr, que consegue, através do humor e da ironia, testemunhar o seu tempo resguardado pela (auto) crítica mordaz. Para isso, em muito a realidade o ajudou: para entendermos o Brasil nesse longo (e inacabado) processo da ditadura à democracia – não só política, mas econômica -, encontramos, no conjunto de sua obra, uma desconstrução proposital do discurso sério, a instauração de um espaço carnavalesco no papel (segundo a concepção de Bakhtin) que é o espelho, nem sempre deformado, daquele captado na realidade. Assim, escudado pela crítica do riso, expõe a ambivalência não só da cultura brasileira, mas do próprio homem universal, através de uma análise de riso reduzido, onde não há a absolutização de nenhum ponto de vista, de nenhum pólo da vida e da idéia”.

Além disso, nesse caso, radicalmente, o que é conteúdo é forma: mais do que nenhum escritor/cronista brasileiro de seu tempo, Millôr instaurou a primazia absoluta da fragmentação em seu discurso, compondo uma linguagem mosaica que pressupõe um leitor disposto a se embrenhar no caleidoscópio da sua narrativa, já que, nas amarras dessa escritura estilhaçada, não há indicação de fio a ser puxado para desfazer a verdadeira colcha de retalhos (patchwork) discursiva. Parece querer-nos dizer, também ele, diante da crise de ideologias que vivemos, “não me sigam, eu também estou perdido”.

Nesse processo, posterior a O Pasquim, que incluiu marcas como a polissêmica “livre-pensar é só pensar”, o bordão “arte é intriga” e a ideologicamente palíndrômica “a mala nada na lama” (tanto faz ler da direita para a esquerda quanto da esquerda para a direita), Millôr marcou presença em grandes publicações, todas com repercussão nacional. Atualmente, para acompanharmos a sua obra, podemos acessar a sua página na internet – www.millor.com.br – ou buscar as suas crônicas na revista Veja, onde - ironias das ironias - ocupa hoje um espaço similar ao inicialmente utilizado em seu início de percurso, perdido entre páginas de publicidade – nesse caso, aliás, acaba jogando com as mesmas armas de seus, digamos, pares – rompendo com a lógica editorial da publicação enquanto ideologia e assenhorando-se das múltiplas formas possíveis que a publicidade permite, instaurando uma verdadeira encampação do espaço midiático e, mais que tudo, impondo a sua voz extremamente pessoal e subjetiva diante de um veículo de comunicação que se diz objetivo e imparcial. Talvez alguns leitores tenham dificuldade em percebê-lo naquele espaço, imprensado entre as páginas amarelas e as múltiplas páginas de propaganda, mas Millôr faz o possível para fazer respeitar o seu nome, o de seus leitores e seus (poucos) cabelos brancos. Sabe que entre a graça e a desgraça há um limiar mínimo, que entre o trágico e o cômico, tudo pode ser uma questão de ponto de vista. Então, nesses casos, talvez o melhor caminho seja mesmo o do ceticismo, ou melhor, saber que às vezes o cômico pode ser uma defesa contra o trágico. No fundo, ele percebe que “o homem [em seus 15 minutos de fama] é um ator que gagueja na sua única fala, desaparece e nunca mais é ouvido”, na clássica frase de Shakespeare, em Machbeth. Conforme lida, podemos considerá-la trágica ou cômica – eis o fundamento do espírito humano, seja o leitor cético ou ascético.

Apontado por muitos como um dos maiores pensadores brasileiros e um dos de maior inserção na vida nacional, Millôr Fernandes filia-se a uma tradição da literatura brasileira que despreza o oficial. Mais que isso, aproximando-o do “sargento de milícias” Leonardo, podemos considerá-lo “filho da corruptela e da derrisão”. E falando em filiação, com certeza, a duplicidade de datas de nascimento cobra o seu preço: qual delas comemorar? Seguindo o discurso e a prática infracionais, embora considere que “Aniversário é uma festa/ Pra te lembrar/ Do que resta”, certamente a horda ipanemense, representada pelo próprio Millôr, deve estar fazendo festa hoje. Festa pela passagem dos anos de um frasista que perde o amigo, mas não a ética, que sabe que a liberdade individual se sobrepõe a qualquer ideologia ou governo e que faz do humor “a quintessência da seriedade”, construindo com ele uma crítica visceral ao homem de nosso tempo.

Hoje, então, esse animal político faz 85 anos.


Breno Serafini
http://www.brenoserafini.com.br

Porto Alegre/RS



Breno Camargo Serafini é doutorando em Letras pela UFRGS, que defenderá sua tese “Millores dias virão? A crônica de Millôr Fernandes” até julho deste ano.



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