segunda-feira, 21 de março de 2011

Violência sem voz

São muitas as caras da violência que nos cerca e, normalmente, nem percebemos que o perigo convive conosco, usando os mais diferentes disfarces. É normal protegermo-nos dos bandidos com grades e armas. Somos cautelosos com estranhos e em lugares desconhecidos, mas não raro, convivemos com o inimigo, trazemos para perto de nós, ou mesmo para dentro de nossas casas, aquele que nos roubará a dignidade, o amor próprio, a liberdade, a felicidade.

Deparamo-nos com verdadeiros brutamontes disfarçados de homens, que agridem, humilham e estupram filhos e filhas, mulheres, vizinhas, parentes ou desconhecidos. Se não bastasse, apropriam-se da chantagem verbal, tornando suas vítimas silenciosas, submissas e cúmplices. Conseguem transferir a culpa à própria vítima. O medo a domina e a engessa, tornando-a ainda mais vulnerável ao seu algoz. Mães que escolhem para seus maridos a escória masculina e sujeitam-se, bem como aos filhos, ao convívio “pacífico”. Anos a fio sem voz nem vez.

Ao vermos as estatísticas, percebemos que é ainda pior do que imaginávamos. Morrem no Brasil, em média, dez mulheres por dia, “vítimas de agressão intencional de terceiros”. Isto é catastrófico. Normalmente deixam filhos e esses filhos estarão à mercê da boa vontade de parentes para criá-los e têm grandes possibilidades de se tornarem agressores num futuro nem tão distante. Para 57% dessas pessoas, as agressões acontecem diariamente. 70% dos agressores são maridos, companheiros ou ex-companheiros. Quanto amor!! Diariamente. Saber que em algum momento do dia você irá apanhar e não ter forças para quebrar o ciclo, acreditar que você “apanha porque merece, porque não presta” é algo terrível na autoestima de uma pessoa. Crianças sem infância.

Ao vermos a evolução da mulher no Brasil e no mundo, ficamos felizes. As conquistas são enormes nos dois últimos séculos, porém, tem um longo caminho a ser percorrido. Precisamos discutir a violência doméstica em casa, na sala de aula, no barzinho e em qualquer lugar. A família e a escola têm uma grande responsabilidade na alteração positiva das estatísticas existentes hoje.

Encontramos muitas injustiças mascaradas, maquiadas com o toque feminino de muitas mulheres que, normalmente de forma inconsciente, são mais machistas do que os homens. Para defender certos conceitos, costumes, cultura e valores conservadores, obsoletos e fora de moda, criam um discurso tão repugnante quanto algumas atitudes de muitos homens, normalmente escondidos atrás de uma certidão de casamento, de um parentesco ou da força física.

É extremamente urgente dar voz às vítimas. É um processo lento e gradual. Homens e mulheres vivendo pacificamente, lutando no mesmo lado, sabendo respeitar as diferenças e buscando um mundo mais justo e menos desigual, melhor de se viver.

Rosane Roehrs Gelati
rosane.r.gelati@gmail.com
Uruguaiana, RS



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