terça-feira, 7 de junho de 2011

No embalo de sábado à noite

Costumavam ouvir essa música durante todos os sábados à noite que saíam. Era sagrado. Quase regra. No mesmo bar de sempre. Aquele, da Avenida Brasil, lembra? Um lugar tão aconchegante que ele se sentia a vontade até mesmo de tirar os tênis, já que sempre tivera um dia cansativo, cheio de trabalho e correria. Ela não dizia nada. Aliás, ela nunca disse nada a ele. Nunca se referia a ele como seu parceiro ou alguém que amasse. Ela não o amava. Ele a amava. Muito. Chegava a ficar sem respirar só de pensar em perdê-la. Guardava todas as fotos que tiraram juntos em um quarto apenas de fotografias. Era completamente louco. E de tão louco, não enxergava problemas em negócios. E era essa a condição: estarem todos os sábados à noite em um bar na Avenida Brasil, tomando uma xícara de café e comendo uma empada. Perguntar se está tudo bem, é quase impossível. Ela não queria papo de jeito nenhum. Só estava ali, cumprindo o trato que tanto prometeu a ele, em troca de dinheiro. Um sábado, que poderia ser um sábado qualquer, mas foi aquele sábado, dia 21 de novembro, em pleno inverno rigoroso, o único dia do ano que o bar da Avenida Brasil fez um baile. Não era social. Era um baile qualquer. Tocavam-se músicas da época como Cindy Lauper, Bon Jovi e outros sons interessantes. Eles não sabiam. Nem se quer se arrumaram, mesmo não sendo um baile elegante. Mas estavam lá. Tomando suas xícaras de café e comendo suas empadas. Ele nem comera mais. Só a observava. Achava linda a forma como ela comia, tocava nos cabelos, olhava pro relógio, louca pra sair dali e pegar seu pagamento. Ele resolveu pedir uma tequila. Ela o olhou com uma cara meio estranha e sorriu. Ele não estava acreditando naquilo. Ela nunca dera um sorriso a ele. Foi então que ele pediu uma tequila para ela também. Os dois tomaram seu copo de tequila. Ele perfurava o olhar dela e ela perfurava o olhar dele, mesmo que tenha sido pela primeira vez de anos. Passaram-se minutos, horas... Ela ainda estava ali, já no terceiro copo de tequila, quando, já meio embalada, questionou-o "por quê?". Ele estava desatendo, pois ficava alucinado toda vez que a enxergava. Ela repetiu mais alto, "por que eu?". Pensativo, ele não tinha nenhuma sombra de dúvidas e respondeu, "não vês que és a mulher mais bela da face da Terra?". Fazia meses que ela não ouvira a voz dele. Ficou até sem graça, mas voltou a conversar. E assim ficaram por horas conversando, discutindo sobre a vida alheia e sobre suas próprias vidas. Estavam, após anos, se conhecendo, ou reconhecendo, eu deveria dizer. Passaram a noite com tequila e músicas. Sua única e última noite. Já era tarde. Ela levantou-se e anunciou sua ida para casa. Ele quis a levar, mas ela não quis. Queria ir sozinha. Ele a acompanhou até a frente do bar, quando um garçom lhe disse: "por que o senhor está falando sozinho?".

Fernanda Fávero Alberti
http://poeta-de-privada.blogspot.com
Santiago, RS



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